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A dois passos não sei de onde.

Posted by RcZem



Sentado no ponto mais alto e olhando a cidade, quase morta, morbidez típica do domingo
Mais insosso estava eu, apático e desgastado
Não me julgava boa companhia, nem eu mesmo me suportava
Queria a meia-luz do meu quanto, o meu silêncio
Queria um off dos meus pensamentos
Queria ar pra fazer os meus pulmões funcionar
Queria um tempo, uma nova era.
Mergulhar até o fundo e emergir renovado.
Abençoado pela graça do esquecimento
Forças mesmo só para reclamar com a ANVISA
Para tirar o amor das prateleiras da vida
Por ser perecível e causar estrago em quem consome
Matei minha fome e hoje agonizo
Tudo o que foi engolido agora quer dar o fora
Amor reduzido, convertido em lágrimas.
E eu? Só o pó!

Agosto, sem gosto.

Posted by RcZem

Estava tão escuro. Um breu denso feito o buraco negro que me consumia por dentro.
Tentava esvaziar minha cabeça repleta de pensamentos que eu nem podia entender.
O maço de cigarro já amassado me fazia companhia. E nem era agradável.
Nem eu queria estar perto de mim.
A verdade é que não sei porque escrevo no passado se a dor que eu sinto, agora, é bem presente.
Quem é que entende?
Nem era agosto e estava bem seco. Tão seco que nem as lágrimas escorriam.
Continuei com a alma suja. De memórias. De medos. De ódio.
A noite fria, escura e seca permaneceria durante o dia. Eu tinha certeza disso.
E essa angústia, esses anseios, me martirizariam até que eu tivesse consciência.
Tive vontade de não ter nenhum dos cinco sentidos. O nada era bem mais aconchegante, tanto quanto se pode ser pra quem se rendeu.
Eu me rendi.
A vida vem em imagens consecutivas e sem nexo a todo momento. Queria eu ter como passá-la a limpo. De onde estou agora só vejo rabiscos.
Tenho ainda receio do castigo. Mil chibatadas no ego.
Orgulho maldito.
Não escolhi ser o protagonista dessa história. Queria contar uma daquelas onde tudo acaba bem. E no fundo eu sei que tudo se resolve, ou não. A gente simplesmente aprende a sobreviver com mais um nó na garganta.
Tenho tantas coisas que, por tê-las, agonizo.
Com a luz ainda acesa consigo ver cada objeto, até aqueles mais escondidos. Me pergunto pra que tanta coisa se nada faz sentido. Tolo menino que vai sempre atrás daquilo que é proibido.
Tantas coisas foram a mim interditadas.
Não ultrapasse a linha. Tão tênue.
Quantas palavras e nenhum caminho.

Marcador de páginas

Posted by RcZem

Quem vai ler minhas páginas?
Em branco, amassadas, ainda só rascunhos do peso que carrego sobre as costas
Prefiro debruçar sobre o livro fechado e marcar a página onde escrevi seu nome
Entender o que eu digo exige a parcimônia dos apaixonados, não é para qualquer um
Entender seria o mesmo que entregar-se e isso exigiria que um novo capítulo fosse escrito
Mas o tinteiro está quase vazio. E a pena?
Só de mim mesmo, dessa ríspida insistência em amar.
O passado ficou amarelado te tanto que foi revisado na busca incessante de se encontrar o verso exato que define o erro.
Insistir nisso tem me feito trapo sujo de tirar pó da prateleira onde seu inalcançável exemplar permanece intocável.
Queria apenas a reciprocidade de leves e inconseqüentes atos.
Sutilezas dos amantes sem pudores
Que fazem festa de qualquer momento bobo ou engraçado
Anseio por assistir em preto e branco nossas cores
Enquanto você engaveta meus sonhos sem pecado
Rabisque em meu corpo suas dúvidas mesmo que eu permaneça sozinho ainda que acompanhado.
De joelhos sobre piso que um dia engolirá meu corpo
Transformando minha vida em um mausoléu onde será guardado todas as obras inacabadas
Orando pelos pobres poetas apaixonados que traduziram em versos suas dores.
Vítimas ímpares desse bárbaro
O amor.

Amar é desperdício

Posted by RcZem


Se eu te encontrasse dia desses
De manhazinha quando o Sol desponta
Veria na tua face alva e redonda
Os devaneios que me perseguem feito sombra.
Pensaria eu que amar é desperdício
É coágulo nas veias de quem insiste nisso
Posto que teu encanto conjurou-se vício
Pago as penas dessa abstinência e sigo.
Num caminho tão estreito que só mesmo eu caibo
Sem espaço pra mãos dadas nem abraços.
A passos lentos carrego meu corpo estilhaçado
Segurando na garganta uma nota de solidão.
E se meu peito permanece machucado
Ainda há o vento que sopra os estilhaços
Pro fim desse horizonte onde um dia te encontrei.
Nascendo como o Sol onipotente
Larguei ali suas mãos quentes
E no frio do teu silêncio congelei.

Do que tens fome?

Posted by RcZem


Ele chorava num riso tímido toda a utopia que guardava em si
Sempre na paranóia de uma Seleção Natural. Todos eram vistos como predadores.
So ele não percebia o quanto devorava de si mesmo.
Auto-canibalismo.
Seus dias eram ritualísticos. Eram os mesmos caminhos para não se perder. Sempre achava que o próximo passo poderia ser o abismo.
E quase sempre era mesmo.
Logo percebeu que se jogar neles era menos penoso do que buscar formas de desviá-los.
Assumia então uma apatia considerável, preferiu calar-se
Pobrezinho... não podia sentir o amor.
Mentira! Ele só não sabia o que é ser amado.
Amar ele sabia. Sabia tanto que, por isso, se detestava.
Tornou-se amorfóbico.
Foi a sua forma de manter-se vivo. No sentido menos literal da palavra
Odiar-se era a única forma de manter-se assim, afinal a dor é mais aliviante que o nada
Internou-se no seu mundinho por conta própria. Ele mesmo fizera seu diagnóstico:
Paranóico, auto-destrutivo, obsessivo, fóbico... e dentre tantas patologias descobriu que a mais grave e fatal delas era ser ele mesmo, era ser...
Humano.

A minha verdade sobre nós

Posted by RcZem


Me dê tudo que eu preciso
E veja em pouco tempo eu partindo
Em busca daquilo que ainda não tenho
Somos insaciáveis.
A facilidade do acesso não causa júbilo ao vencedor, ninguém quer de fato vencer por W.O.
Não venha você, dramaticamente, se estender ao chão para que eu pise
O que eu quero, mesmo em segredo, é ser também pisado.
Não sobreviveríamos a dias redondamente perfeitos
O queremos, bem lá no fundinho, é bater a canela nas quinas dos quadrados
Queremos dor!
Pronto. Sinto-me mais aliviado.
Ouvir o mesmo “Eu te amo” todo dia tem me deixado cansado
A mesma rotina, o mesmo corpo, as mesmas posições
Conheço todas as imperfeições do seu corpo e confesso que ultimamente é só o que eu tenho reparado.
Quero é chibatadas de leves e inconseqüentes atos.
Reconheço tua dedicação ao longo de todo esse tempo, fomos felizes, fato.
No entanto e por favor sem essa cara de espanto
Creio que ser feliz é para os fracos.
Tudo bem! Podem começar a atirar as pedras.
Podem me chamar de Maria Madalena
Afinal quem é que não tem um lado sádico?
Masoquistas então... quase cientificamente provado.
Desde criança já gostávamos de arrancar a casquinha dos machucados.
Sim! É isso meu caro.
Queremos mesmo são os desafetos, correr atrás do que não nos é dado.
Tente ao menos fingir que me odeia, quem sabe eu não volte pros seus braços.

O amor, um palco e um porre.

Posted by RcZem

De repente se descobre que o que pensávamos ser epifania não passa de mais um enredo fracassado.
O que parecia tão certo torna-se dubitável.
E o final da peça, por todos já dramatizado se repete.
Talvez uns quilos a menos e uns goles a mais.
No reinado da insônia reina a brasa do cigarro quebrando o escuro feito vaga-lume no mato.
Mas me digas para que tantas firulas somente para dizer que teu sonho foi frustrado?
Bastaria que te vissem, os sinais de descontentamento estão presentes no seu rosto feito lençol amarrotado.
E a cura só vem em forma de diálogo.
Uma conversa franca entre você e o tempo.
Não se atreva a dizer isso aos desafortunados, posto que o tempo é sempre conjurado no passado.
Distante de um futuro imperfeito que se manteve intransitivo.
Contente-se, portanto, com um monólogo ou então se cale
Agora tudo é silêncio e saudade.

Muito prazer, nostalgia.

Posted by RcZem

Agora era tempo de ser criança
De correr livre pela rua, com a sensação de que, se quiséssemos, poderíamos voar
Quando os medos eram só de bruxa ou bicho-papão
Quando a única obrigação era ser engraçadinho
E ser paparicado não era privilégio
Quando o único limite eram os horários do banho ou da refeição
E quando sozinhos, bastaríamos usar a imaginação
Quando amor era só de pai e mãe
E nem isso eu tive...
Então que porra é essa?
Como pode doer no peito e culparmos o coração?
Não!
Não me venha falar de amor num mundo de narcisos, onde o centro do universo é o próprio umbigo.
Então cala a boca e chega de poesia
Recolha os cacos antes que os estilhaços do amor perdido corte seus pés quando estiver descalço
E ai sim sentirá a dor, não mais aquela da criança que um dia fora
O que sente agora meu caro é só solidão.

Amor de alfaiate

Posted by RcZem

A tarde se põe deslumbrante, vestida de cores gris
Numa costura fina, digna de San Laurent
Seu manto quente aquece o coração que dispara quando a mente insistem em lembrar do seu rosto
Sempre decorado por uma ternura constante.
O corpo grita no silêncio, rompendo a calmaria perene da noite que se anuncia
E sinto meu rosto rubro quando relembro seus lábios carmim.
Já tão meus.
O céu escuro, tão imenso, se amplia no horizonte sem fim.
Ahh se eu pudesse nesse momento costurar tua pele alva em mim...